NJPW: Os riscos da expansão

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Estamos vivendo um momento aonde a NJPW explodiu e vem conquistando fãs a rodo, com combates excelentes um atrás do outro. Mesmo tendo um Booking que não é considerado dos melhores, a qualidade absurda de seu produto a impulsiona e a torna uma gigante, não só no oriente, mas também ocidente.

Esse crescimento, se deve muito a “globalização” do Pro Wrestling (ou apenas expansão e facilidade de acesso para ser mais exato). Ao longo desse processo de expansão da NJPW, devemos levar em conta toda a questão cultural do país. Empresas como AJPW, PW NOAH e a própria NJPW, sempre foram empresas que preservaram suas raízes e seu histórico, sempre foram empresas que seguiram seus dogmas. O puroresu tem muito disso, devido a questões culturais dos próprios japoneses.

Entretanto, a NJPW decidiu se expandir e “ir ao combate” de fato. Antes tínhamos as parcerias com a CMLL e a ROH (e até com a RevPro, mas esta teve impactos mais recentes) que agora se intensificaram ainda mais. Esta posição que Harold Meiji, o presidente da NJPW optou por adotar, é o resultado de inúmeros casos. O primeiro deles que quero falar, é sobre uma das maiores minas de dinheiro vistas no PW: A Bullet Club.

A Bullet Club foi fundada anos atrás por Prince Devitt (atual Finn Bàlor na WWE) e a princípio era uma stable composta apenas por gaijins (estrangeiros). O tempo foi passando e a stable foi ganhando extrema popularidade (e perdendo qualidade, diga-se de passagem), e conquistando cada vez mais fãs, e em sua gigante maioria, fãs ocidentais. Eu mesmo fui uma das pessoas que foi atraída pela NJPW graças a Bullet Club. A produção de camisas e artigos relacionados a BC, a constante aquisição de grandes nomes para a mesma e todo o fervor dos fãs em relação a stable a fizeram dela uma arma importante para a NJPW ganhar novos mercados. E dentro desta mesma stable, tivemos um homem que também foi responsável por uma grande explosão. Ele mesmo, Kenny Omega.

O canadense é considerado por muitos como o melhor wrestler do mundo (eu o considero o melhor ocidental atualmente, mas é ponto para discussão de outro artigo), e isso impactou diretamente no produto da NJPW. Sua constante crescente de popularidade o colocou no topo da NJPW, ao lado de nomes como Okada, Tanahashi e Naito. Omega foi rapidamente se tornando o “top gaijin” da empresa após a saída de AJ Styles, e o fato de entregar constantemente ótimos combates lhe fez crescer ainda mais. E isso beneficiou a NJPW mais do que pensamos. Graças a Omega, os olhos se voltaram para a NJPW como nunca antes haviam voltado, e novos fãs foram surgindo querendo ver esse tal lutador formidável, mas foram abrindo portas e conhecendo de fato a empresa nipônica.

Pois bem, tendo citado estes dois pontos, temos o pontapé da expansão, ou ao menos tivemos o nome da empresa espalhado aos quatro cantos e ela atinge um pico de popularidade que jamais teve igual. Com isso uma expansão física é iniciada de fato. O calendário de eventos constantes da NJPW nos EUA foi o primeiro passo. Claro, antes já havíamos tido eventos como o War of the Worlds em conjunto da ROH, mas ainda assim, um evento em parceria, não um evento único que levava o nome da NJPW. Os eventos na Inglaterra. A criação de um título americano, que por sinal visa dar mais destaque aos nomes fora do escopo japonês. Tudo isso era sinal de que a NJPW tinha como objetivo invadir de fato o território ocidental e o vem fazendo com maestria, pois todos seus shows simplesmente esgotam.

Isso é benéfico em vários pontos, afinal, ganha-se mais dinheiro, tanto em vendas de ingresso para shows quanto em seu serviço de streaming e venda de merchandising. Mas nem tudo são flores. Esta famigerada expansão, pode ser um baita tiro no pé e trazer muitos perigos para a empresa japonesa.

O primeiro deles é o abandono de seu estilo. Aquilo que cativou os fãs foi como a NJPW realiza seus combates, a forma que eles acontecem. Existe toda uma mística em torno disso, todo o estilo japonês, ao qual não somos acostumados a ver. E isso pode se perder. Inúmeras críticas do próprio público japonês foram soltas, após por exemplo uma longínqua “ladder match” entre Omega e Elgin, que fugia totalmente dos padrões do puroresu, que com a perdão do trocadilho, é muito mais “Puro”. Ou até mesmo o combate entre Omega vs Ibushi vs Rhodes, pelo título máximo da NJPW, que também sofreu críticas por sair do padrão e da “raiz” da empresa.

Isso também acarreta em outro ponto, aonde a NJPW pode acabar dando destaque demais para gaijins e esquecendo seu próprio público de origem, o público japonês, o que sem sombra de dúvidas pode causar desagrado. Isso se viu com a feud envolvendo a The Elite e Cody Rhodes, toda a guerra civil dentro da BC e tudo mais. Isso acarretou num foco muito grande nos wrestlers ocidentais e abandonou um pouco os seus nomes de origem. Querendo ou não, isso faz com que desagradem algum público e, ao perderem seu “público de casa”, expandir para capturar diferentes tipos de público se torna uma missão dificílima.

Outro ponto que a NJPW deve tomar cuidado é com quem se alia. Vimos no G1 Supercard por exemplo, inúmeras criticas aos combates por parte da ROH, aonde diziam que eram inferiores e só as da NJPW mereciam serem vistas. Isso prejudica a imagem da própria empresa japonesa, apesar de parecer justamente o contrário. Numa rápida olhada em comentários a respeito do evento vemos pessoas falando para a NJPW tomar cuidado para não cair na lama junto da ROH, que vem tendo uma queda bruta de qualidade em seu produto.

Correndo quase que por fora, vem a própria All Elite Wrestling. O cenário americano caiu muito em relação ao que possuía nos últimos anos (muito devido a crescente do cenário britânico), a AEW vem como concorrente direta de empresas como a própria ROH e a Impact Wrestling (WWE esta totalmente fora de cogitação, mas tema também para outro artigo) e a NJPW se recusou a fechar uma parceria com a mesma. Tendo isso em mente, em cenário americano ambas irão se enfrentar diretamente nessa expansão, pois a NJPW estará em território que não á pertence e isso é um ponto a se tomar cuidado. Por mais que a NJPW apresente se não o melhor, mas um dos melhores produtos do PW, ela deve tomar cuidado por onde pisa. Nem sempre expandir e conquistar é a melhor tática. Talvez se a mesma fizesse inserções menos brutas ao cenário americano e ainda focasse (como sempre fez) em seu berço, seria uma atitude mais segura e até poderia render mais frutos.

Claro, isso não significa que a NJPW deva estagnar-se e contentar-se com o que possui e desistir da expansão… Não. Nem mesmo a maior banda de todas resistiria uma carreira se fizesse o mesmo produto, no mesmo local por toda a vida. Claro, a NJPW deve expandir seu produto, mas tomar cuidado por onde vai. Talvez bater de frente diretamente no cenário que não é seu de origem não seja a melhor das hipóteses e, muito menos abandonar o seu estilo que a fez a gigante que é.


Você acredita que esta expansão está de fato surtindo efeitos ou que é apenas um momento? Caso seja real, quais seriam de fato as reais conquistas disso tudo e para onde podemos ver a NJPW ir? Comente aí, vamos debater!

Por: Danilo Oliveira

Twitter: @ace_williamspro

Jornalista, designer gráfico e apaixonado por cultura geek. Lutador de Pro Wrestling.